Presente a um enforcamento (Present at a hanging)

Ambrose Bierce


Um velho chamado Daniel Baker, que morava nos arredores da cidadezinha do Líbano, no estado de Iowa, era suspeito por seus vizinhos de ter assassinado um mascate que tivera permissão de passar a noite em sua casa. Isso ocorreu em 1853, quando o número de mercadores ambulantes que circulavam pela região Oeste era maior que o de hoje, exercendo uma atividade que envolvia riscos consideráveis. Os mascates atravessavam o país de ponta a ponta, carregando sua mochila por toda sorte de estradas solitárias, e eram obrigados a depender da hospitalidade da gente do campo. Isso os levava a travar contato com tipos esquisitos, alguns dos quais não tinham muitos escrúpulos nos métodos que usavam para ganhar a vida; o assassinato sendo um meio aceitável para este fim. Eventualmente, acontecia de um mascate com a mochila vazia e a carteira cheia ter seu paradeiro traçado até a morada remota de algum tipo violento e, a partir de lá, não deixar traços. Assim foi no caso do “velho Baker”, como todos o chamavam. (Apelidos como esse são dados nos “assentamentos” do Oeste apenas a pessoas idosas que não gozam de boa reputação; à ignomínia generalizada da desonra social afixa-se o opróbrio da idade avançada.) Um mascate entrara em sua casa e nenhum mascate de lá saíra — isso era tudo o que se sabia.




Certa noite, sete anos mais tarde, o reverendo Mr. Cummings, um pastor da Igreja Batista de renome na região, conduzia sua viatura ao largo da fazenda de Baker. A noite não estava muito escura: um pedacinho de lua brilhava em algum lugar sobre o fino véu de neblina que se estendia pela terra. Mr. Cummings, folgazão por natureza, assobiava uma melodia, que interrompia de quando em quando para dar amistosos comandos de incentivo ao cavalo. Ao se aproximar de uma pequena ponte sobre um barranco seco, avistou a silhueta de um homem, claramente delineada contra o fundo cinzento da floresta enevoada. Trazia alguma coisa pendurada às costas e segurava um grosso cajado — é óbvio que se tratava de um mercador ambulante. Havia algo de vago em sua postura, que se assemelhava à de um sonâmbulo. Mr. Cummings puxou as rédeas do cavalo quando chegou perto dele, cumprimentou-o amigavelmente e convidou-o a tomar assento no veículo — “se estivermos indo na mesma direção”, acrescentou. O homem ergueu a cabeça e encarou-o, olho no olho, mas não respondeu nem esboçou qualquer gesto. O pastor, com afável persistência, reiterou o convite. Nisto, o homem, que se encontrava na beira da ponte, estendeu a mão direita e apontou para baixo. Mr. Cummings desviou o olhar para onde ele assinalava, no fundo do barranco, mas não viu nada fora do comum e voltou os olhos para o seu interlocutor. Ele havia desaparecido. O cavalo, que durante todo esse tempo esteve excepcionalmente indócil, no mesmo instante deu um relincho de terror e saiu em disparada. Quando conseguiu retomar o controle do animal, o pastor já avançara cem jardas e encontrava-se no cume do morro. Olhou para trás e viu mais uma vez a silhueta, no mesmo lugar e com a mesma postura de quando a avistara antes. E foi então que, pela primeira vez, sentiu a presença do sobrenatural. Partiu veloz para casa, tão rapidamente quanto seu cavalo conseguia, de bom grado, galopar.

Ao chegar, relatou sua aventura para a família e, na manhã seguinte, acompanhado por dois vizinhos, John White Corwell e Abner Raiser, voltou ao local. Encontraram o corpo do velho Baker pendurado pelo pescoço em uma das vigas da ponte, exatamente sob o lugar onde a aparição se manifestara. Uma espessa camada de poeira, ligeiramente umedecida pela neblina, cobria o soalho da ponte, mas as únicas pegadas eram as do cavalo de Mr. Cummings.

Ao baixarem o cadáver, os homens inadvertidamente reviraram a terra solta e friável do declive, revelando uma ossada humana, que já estava quase à mostra pela ação das águas e das geadas. O esqueleto foi identificado como sendo o do mascate desaparecido. No duplo inquérito judicial que se seguiu, o júri decretou que Daniel Baker tirara a própria vida em uma crise de insanidade temporária e que Samuel Morritz fora assassinado por pessoa ou pessoas desconhecidas.



Outro conto macabro de Ambrose Bierce (1842-1914?), admirável não pela originalidade, mas pela concisão do estilo.

Calor de agosto (August heat)

W. F. Harvey


Phenistone Road, Clapham, 20 de agosto de 190—

O dia de hoje foi, sem dúvida, o mais extraordinário da minha vida, e quero registrar detalhadamente o que ocorreu enquanto os eventos ainda estão vívidos em minha memória.

Permitam-me dizer logo de saída que meu nome é James Clarence Withencroft.

Por profissão, sou desenhista; não muito bem-sucedido, mas minhas ilustrações em preto e branco rendem o suficiente para suprir minhas necessidades básicas.

Minha única parenta em primeiro grau, uma irmã, morreu há cinco anos, o que significa que não dependo de ninguém e ninguém depende de mim.

Tomei o café às nove da manhã e, depois de folhear o jornal, acendi o cachimbo e deixei o pensamento divagar na esperança de esbarrar em algum tema adequado ao meu lápis.

Mesmo com as portas e janelas abertas, fazia um calor sufocante no quarto, e eu acabara de chegar à conclusão de que o local mais fresco e confortável na vizinhança seria a parte mais funda da piscina pública quando veio a inspiração.

Comecei a desenhar. Fiquei tão absorto em meu trabalho que nem toquei no almoço, parando apenas quando o relógio da igreja de São Judas Tadeu bateu quatro horas.

A ilustração, apesar de feita às pressas, era minha obra-prima.

Retratava um malfeitor no banco dos réus logo após o juiz pronunciar a sentença. O homem era gordo — extremamente gordo. Sua carne dependurava-se em camadas sob o queixo; desdobrava-se em pregas em torno do pescoço largo e atarracado. Ele estava de barba feita (talvez fosse mais apropriado dizer que, alguns dias antes, ele provavelmente estivera de barba feita) e era quase careca. Estava em pé, seus dedos curtos e grosseiros agarravam o parapeito e ele olhava reto para frente. A sensação que seu semblante despertava era menos de horror que do mais completo e absoluto desânimo.

Nada no homem parecia ser forte o bastante para suportar aquela montanha de carne.

Enrolei o desenho e, sem saber bem o porquê, guardei-o no bolso. Em seguida, com aquela rara sensação de felicidade que nos dá a consciência de um trabalho bem feito, saí de casa.

Acho que minha intenção era fazer uma visita ao meu amigo Trenton, pois me lembro de seguir pela Lytton Street e virar na Gilchrist Road, no sopé do morro, onde operários montavam os novos trilhos do bonde.

A partir daí, tenho apenas uma vaga lembrança do caminho que tomei. Só estava ciente do calor insuportável, que se elevava do asfalto empoeirado como uma onda quase palpável. Eu ansiava pelo temporal que os aglomerados de nuvens baixas e plúmbeas no horizonte prometiam.

Devo ter percorrido oito ou nove quilômetros quando um menino interrompeu meu devaneio ao indagar as horas.

Faltavam vinte minutos para as sete da noite.

Quando ele se afastou, comecei a prestar atenção nos arredores. Vi que estava em frente ao portão de um quintal cercado por uma extensão de terra seca, ajardinada de flores púrpuras e gerânios vermelhos. Na entrada havia uma placa com a inscrição:

CHS. ATKINSON GRAVADOR DE INSCRIÇÕES TUMULARES
EM MÁRMORE INGLÊS E ITALIANO

Vindo do quintal, ouvia-se um alegre assobio, as pancadas de um martelo e o som frio do metal contra a pedra.

Um impulso me levou a entrar.

Sentado de costas para mim, um homem trabalhava com afinco em uma laje de mármore raiado. Virou-se ao ouvir meus passos e parou de repente.

Era o homem que eu havia desenhado, cujo retrato trazia no bolso.

Ficou sentado ali, imenso e elefantino, o suor escorrendo do crânio, que enxugava com um lenço de seda vermelho. As feições eram as mesmas, mas a expressão era completamente diferente.

Saudou-me com um sorriso, como se fôssemos velhos amigos, e apertou minha mão.

Eu me desculpei pela intromissão.

“Está tão quente e ofuscante lá fora”, eu disse. “Este lugar parece um oásis no deserto”.

“Não estou certo de que seja um oásis”, ele retrucou, “mas sem dúvida está fazendo calor, um calor infernal. Queira sentar-se, por favor!”

Indicou a extremidade da lápide na qual estava trabalhando, e eu me sentei.

“Que bela pedra você arranjou”, eu disse.

Ele discordou com um abano de cabeça.

“De certo modo, até que é”, explicou. “A superfície é tão lisa quanto se poderia desejar, mas tem uma grande falha no lado posterior. Não que alguém fosse perceber, mas eu jamais conseguiria executar um bom trabalho num bloco de mármore desses. Assim como está, resistiria muito bem durante o verão; não racharia nesse maldito calor. Mas espere até o inverno chegar. Não há nada como uma boa geada para revelar as imperfeições da pedra.”

“Para que serve, então?”, perguntei.

O homem caiu na gargalhada.

“Você não vai acreditar, mas é para uma exposição, essa é que é a verdade. Os artistas expõem suas obras; da mesma forma que os merceeiros e os açougueiros. E nós também temos nossas exposições. Com todas as novidades em termo de lápides, entende?”

Ele continuou a discorrer sobre mármores; quais os tipos que resistiam melhor ao vento e à chuva e quais eram os mais fáceis de trabalhar; depois falou sobre seu jardim e da nova espécie de cravo que adquirira. De dois em dois minutos, largava as ferramentas, enxugava a cabeça reluzente e praguejava contra o calor.

Falei pouco; eu estava apreensivo. Havia algo de estranho, de inusitado, naquele encontro.

A princípio, tentei me convencer de que já o vira antes, de que seu rosto, que me era desconhecido, havia se alojado em algum canto remoto da minha memória, mas eu sabia que isso não passava de autoengano, da busca por uma justificativa plausível.

O senhor Atkinson terminou seu trabalho, cuspiu no chão e se levantou dando um suspiro de alívio.

“Pronto! O que você acha?”, perguntou com indisfarçável orgulho.

A inscrição, que li então pela primeira vez, dizia:

CONSAGRADA À MEMÓRIA
DE
JAMES CLARENCE WITHENCROFT.
NASCIDO EM 18 DE JAN. DE 1860.
FALECEU INESPERADAMENTE
A 20 DE AGOSTO DE 190—
No meio da vida estamos na morte.

Fiquei algum tempo em silêncio. Logo um calafrio percorreu minha espinha. Indaguei onde ele tinha visto aquele nome.

“Ah, em lugar nenhum”, respondeu o senhor Atkinson. “Eu precisava de um nome e gravei o primeiro que me veio à cabeça. Por que a pergunta?”

“É uma estranha coincidência, mas esse nome é o meu.”

Ele deu um longo e baixo assobio.

“E quanto às datas?”

“Só posso confirmar uma delas, e está correta.”

“Que coisa mais esquisita!”, ele disse.

Ele não sabia da missa a metade. Contei o que eu tinha feito de manhã. Tirei o desenho do bolso e mostrei para ele. Sua expressão foi mudando enquanto olhava; ficava cada vez mais parecida com a do homem que eu retratara.

“E foi justo anteontem”, ele disse, “que eu falei para a Maria que fantasmas não existem!”

Nenhum de nós tinha visto um fantasma, mas entendi o que ele quis dizer.

“Provavelmente você ouviu meu nome por aí”, eu disse.

“E você deve ter me visto em algum lugar e não lembra! Você esteve em Clacton-on-Sea julho passado?”

Nunca na vida eu fora a Clacton. Passamos algum tempo em silêncio. Olhávamos, ambos, para a mesma coisa: as duas datas na lápide, uma das quais estava correta.

“Faça o favor de entrar e jante conosco”, disse o senhor Atkinson.

A esposa dele é uma mulher pequena e jovial, com as faces vermelhas e escamosas de quem foi criada no campo. O marido me apresentou como um amigo e disse que eu era um artista. O que foi lamentável, porque depois de terminarmos as sardinhas e o agrião, ela me trouxe uma bíblia ilustrada por Gustave Doré e eu fui obrigado a passar quase meia hora sentado, expressando minha admiração.

Saí para dar uma volta e encontrei Atkinson fumando, sentado na lápide.

Retomamos a conversa do ponto onde paramos.

“Perdoe-me a curiosidade”, eu disse, “mas você se lembra de ter feito algo coisa que possa levá-lo a julgamento?”

Ele negou com a cabeça.

“Não estou falido, os negócios vão bastante bem. Três anos atrás, doei perus para algumas instituições beneficentes na época do Natal, mas não consigo pensar em mais nada. E, além disso, eram perus pequenos”, acrescentou depois de refletir por um instante.

Levantou-se, foi buscar uma vasilha na varanda e começou a regar as plantas.

“Duas vezes por dia, sem falta, quando o tempo está quente”, disse. “E mesmo assim o calor às vezes é demais para as plantas mais sensíveis. As samambaias, por exemplo, Deus do céu, essas não aguentam mesmo! Onde você mora?”

Disse a ele meu endereço. Apertando o passo, eu levaria uma hora para chegar em casa.

“O negócio é o seguinte”, ele disse. “Vamos deixar de rodeios. Se voltar para casa hoje à noite, você acaba sofrendo um acidente. Pode ser atropelado por uma carroça, e as ruas estão cheias de cascas de banana e laranja, isso para não falar em escadas que podem cair na sua cabeça.”

Ele enumerava essas improbabilidades com uma seriedade tão profunda que teria sido engraçado seis horas antes. Mas não achei graça.

“O melhor que você tem a fazer”, ele prosseguiu, “é ficar aqui até a meia-noite. Vamos subir e fumar um charuto; deve estar mais fresco lá dentro”.

Para meu espanto, concordei.


Estamos sentados em um aposento extenso e de teto baixo sob o beiral do telhado. Atkinson mandou a esposa dormir. Está ocupado em amolar algumas ferramentas numa pequena pedra de afiar enquanto fuma um de meus charutos.

O ar está carregado, na iminência de tempestade. Escrevo debruçado sobre uma mesa instável diante da janela aberta. A perna da mesa está rachada, e Atkinson, que parece ser hábil com suas ferramentas, vai consertá-la assim que terminar de afiar o cinzel.

Já passa das onze. Irei para casa daqui a menos de uma hora.

Mas o calor está de rachar.

Capaz de enlouquecer qualquer um.




William Fryer Harvey (1885–1937) é autor de vários contos de horror, dois deles presentes em diversas antologias: o que traduzi para esta página e “The beast with five fingers”, levado ao cinema em 1946 por Robert Florey, com Peter Lorre no elenco. O talentoso escritor e desenhista Johnny Craig se inspirou em “August heat” para produzir “Impending doom”, uma das histórias mais memoráveis de “Tales from the crypt”, da EC Comics. Não pagou direito autoral, mas ninguém saiu perdendo com isso. No conto, gosto particularmente de como Harvey usa os tempos verbais, antecipando o final ao apresentar a esposa do senhor Atkinson no presente: “é uma mulher pequena e jovial”. A ilustração ao lado é de Richard Michael Gorman Powers. A de cima é de Lee Brown Coye.


Ubazakura

Lafcadio Hearn


Há trezentos anos, em um vilarejo chamado Asamimura, no distrito de Onsengori, na província de Iyo, vivia um bom homem de nome Tokubei. Este Tokubei era a pessoa mais rica do distrito e o muraosa, ou chefe, do vilarejo. Sob quase todos os aspectos, era um homem afortunado; mas chegara aos quarenta anos sem experimentar a felicidade de ser pai. Em razão disso, ele e sua esposa, desgostosos por se verem desprovidos de filhos, endereçaram grande número de orações à divindade Fudo-Myo, que tinha um famoso templo erguido em sua devoção, chamado Saihoji, em Asamimura.

Enfim, suas preces foram ouvidas: a esposa de Tokubei deu à luz uma menina. A criança era muito bonita e recebeu o nome de Tsuyu. A mãe tinha pouco leite, por isso contrataram uma ama-de-leite, chamada Osode, para amamentar o bebê.



Tsuyu cresceu e se tornou uma moça deveras formosa; mas, ao completar quinze anos, adoeceu, e os médicos acharam que ela ia morrer. Nesse meio tempo, a babá, Osode, que amava Tsuyu com um amor de mãe verdadeira, foi até o templo Saihoji e rezou com fervor para a divindade Fudo-Myo pela saúde da criança. Todo dia, durante vinte e um dias, foi ao templo e rezou; ao fim desse prazo, Tsuyu se curou repentina e completamente.

A casa de Tokubei se encheu de júbilo, e ele ofereceu um banquete a todos os seus amigos em comemoração ao feliz acontecimento. Mas, na noite do banquete, a babá Osode adoeceu subitamente; e, na manhã seguinte, o médico que havia sido chamado para atendê-la declarou que ela estava morrendo.

Então a família, em profundo pesar, reuniu-se em torno do leito para fazer suas despedidas. Mas ela disse para eles:

“Chegou a hora de contar para vocês uma coisa que não sabem. Minha prece foi atendida. Supliquei a Fudo-Myo que me permitisse morrer em lugar de Tsuyu, e esse grande favor me foi concedido. Portanto vocês não devem lamentar a minha morte... Contudo tenho um pedido a fazer. Prometi a Fudo-Myo que plantaria uma cerejeira no jardim de Saihoji, em oferenda de graças e em celebração. Agora não poderei, eu mesma, plantar a árvore; por isso rogo que cumpram a promessa por mim... Adeus, queridos amigos, e lembrem-se de que fiquei feliz em morrer pelo bem de Tsuyu."



Depois do enterro de Osode, uma jovem cerejeira — a mais bela que se pôde encontrar — foi plantada no jardim de Saihoji pelos pais de Tsuyu. A árvore cresceu e floresceu; e no décimo sexto dia do segundo mês do ano seguinte — no aniversário de morte de Osode — desabrochou de forma esplêndida. E assim continuou a desabrochar por duzentos e cinquenta e quatro anos — sempre no décimo sexto dia do segundo mês — e suas flores, róseas e brancas, eram como os mamilos umedecidos de leite dos seios de uma mulher. E as pessoas a chamavam Ubazakura, a Cerejeira da Ama-de Leite.



Outra lenda japonesa recontada por Lafcadio Hearn (1850-1904), autor de "Oshidori".

A Árvore (The Tree)

Dylan Thomas


Erguendo-se na casa voltada para as longínquas colinas Jarvis, havia uma torre que servia de abrigo a pássaros diurnos e ao redor da qual corujas voavam à noite. Vista do povoado, a luz da janela da torre cintilava como um vaga-lume através das vidraças, mas o aposento abaixo dos ninhos de pardal raramente estava iluminado; teias de aranha cobriam seu teto encardido; dava vista para mais de um quilômetro e meio do terreno acidentado da região, e seus cantos guardavam segredos onde garras deixavam marcas na poeira.

O menino conhecia a casa do teto ao porão; conhecia os gramados irregulares e o galpão do jardineiro, onde as flores jorravam dos vasos; mas não conseguia achar a chave que abria a porta da torre.

A casa se transformava ao sabor dos caprichos do menino e o gramado era o mar, ou a praia, ou o céu, ou o que quer que ele desejasse. Quando o gramado era uma sombria milha marítima e ele velejava com uma flor arrancada sobre as ondas, o jardineiro saía do galpão vizinho à ilha de arbustos. Apanhava, ele também, um caule, e velejava. Montado em uma vassoura de jardim, voava para onde o menino quisesse. Sabia cada história contada desde o começo dos tempos.

No princípio, dizia, havia uma árvore.

Que tipo de árvore?

A árvore na qual aquele melro está cantando.

Um falcão, um falcão, exclamava o menino.

O jardineiro olhava para a árvore e via um enorme falcão pousado num galho ou uma águia balouçando ao vento.

O jardineiro adorava a Bíblia. Quando o sol se punha e o jardim se enchia de gente, sentava-se à luz da vela no galpão, lendo sobre o primeiro amor e o mito de maçãs e serpentes. Mas a morte do Cristo em uma árvore era sua passagem favorita. Árvores o cercavam, e ele previa a mudança das estações pela coloração da casca e pelo jorro da seiva através das raízes encobertas. Seu mundo agia e se transformava como a primavera agia sobre os galhos, transformando sua nudez; seu Deus brotou como uma árvore da terra em forma de maçã, germinando Seus filhos e deixando que Seus filhos fossem transportados pela brisa de inverno; o inverno e a morte agiam num mesmo sopro. Sentava-se no galpão e lia sobre a crucificação, contemplando as noites de inverno por cima dos vasos na jardineira da janela. Julgava que o amor fracassa em noites assim e que muitos de seus filhos são sacrificados.

O menino transfigurava os gramados descuidados com suas brincadeiras. O jardineiro o chamava pelo nome da mãe e o sentava em seus joelhos e falava para ele sobre as maravilhas de Jerusalém e o nascimento na manjedoura.

No princípio, havia o vilarejo de Belém, sussurrou para o menino antes que a sineta soasse na escuridão iminente anunciando a hora do chá.

Onde fica Belém?

Muito longe, disse o jardineiro, no Leste.

A leste, erguiam-se as colinas Jarvis, escondendo o sol, suas árvores conjurando a lua escondida na relva.



O menino estava deitado. Olhou para o cavalinho de balanço e desejou que criasse asas para que pudesse montá-lo e cavalgá-lo pelos céus da Arábia. Mas o vento do País de Gales soprou as cortinas e os grilos fizeram barulho no canteiro malcuidado embaixo da janela. Seus brinquedos estavam mortos. Começou a chorar, mas logo parou, sem encontrar razão para lágrimas. A noite estava tempestuosa e fria, ele estava aquecido sob os lençóis; a noite era tão grande quanto uma colina, ele era um garoto na cama.

Fechando os olhos, contemplou uma caverna rodopiante mais profunda que a escuridão do jardim onde a primeira árvore, na qual haviam pousado os pássaros imaginários, erguia-se solitária e ardente como o fogo. Conteve as lágrimas sob as pálpebras quando pensou na primeira árvore, plantada tão perto dele, como uma amiga no jardim. Levantou-se de mansinho e foi na ponta dos pés até a porta. O cavalinho balançou, impulsionado por suas molas, assustando o menino, que voltou em silenciosa disparada para a cama. O menino olhou para o cavalo, e o cavalo estava imóvel; percorreu novamente o tapete na ponta dos pés e alcançou a porta e girou a maçaneta e foi até o corredor. Tateando à sua frente, chegou ao topo da escada; alongou a vista pela escadaria escura até o vestíbulo, discernindo uma multidão de sombras que se esgueiravam pelos cantos, ouvindo suas vozes sibilantes, imaginando as órbitas de seus olhos e seus braços franzinos. Mas elas se provariam insignificantes e furtivas e inanimadas, não blindadas por couraças invisíveis, e sim envoltas por tecidos tão diáfanos quanto teias de aranha; sussurrariam à sua passagem, tocariam em seu ombro e diriam S em seu ouvido. Desceu as escadas; nem sequer uma sombra se moveu no vestíbulo, os cantos estavam desertos. Estendeu a mão e tateou a escuridão, pensando ter sentido uma cabeça calva e aveludada se insinuar sob seus dedos e penetrar, como uma névoa, embaixo das unhas. Mas não havia nada. Abriu a porta da frente e as sombras escorregaram para o jardim.

Ao encontrar o caminho, seus medos o abandonaram. O luar se espraiara sobre os canteiros selvagens e a geada se espalhava pela relva. Por fim, chegou à árvore iluminada no final da longa via de cascalho, ainda mais antiga que o milagre da luz, com os bichos-de-conta adormecidos sob a casca, com os galhos salientando-se do tronco como os braços congelados de uma mulher. O menino tocou a árvore; ela pareceu se inclinar ao seu toque. Ele viu uma estrela, mais clara do que qualquer outra no céu, brilhando fixamente sobre a torre dos pássaros primevos e reluzindo apenas sobre os galhos secos e o tronco e as raízes nodosas.

O menino nunca duvidou da árvore. Rezou para ela, ajoelhado sobre os gravetos enegrecidos que o vento noturno derrubava no chão. Depois, trêmulo de amor e frio, correu de volta pelos gramados em direção a casa.



Havia um idiota a leste do condado que errava pela região como um mendigo. Ora à porta de uma casa de fazenda, ora à porta do chalé de uma viúva, ele mendigava o pão. Um pároco lhe dera um paletó que se enlaçava em volta de suas costelas e ombros esqueléticos e esvoaçava ao vento enquanto ele arrastava os pés pelos campos. Mas seus olhos eram tão arregalados e seu pescoço tão limpo que ninguém lhe recusava o que pedia. E, ao pedir água, recebia leite.

De onde você vem?

Do leste, dizia.

E assim sabiam que ele era um idiota e lhe ofereciam refeições como paga por limpar os quintais.

Ao se curvar com um ancinho sobre o esterco e os grãos pisados, escutou uma voz avolumando-se em seu coração. Enfiou a mão no feno, apanhou um rato, esfregou o focinho do animal e o deixou ir embora.



Todo dia, a lembrança da árvore assombrava o menino; toda noite, a árvore erguia-se em seus sonhos como a estrela que brilhou sobre o canteiro. Certa manhã, em meados de dezembro, quando o vento das colinas mais distantes soprava impetuosamente ao redor da casa e a neve que caíra de madrugada ainda não derretera nos gramados e telhados, ele correu para o galpão do jardineiro. O jardineiro estava consertando um ancinho quebrado. Sem uma palavra, o menino sentou-se em uma caixa de sementes ao pé dele e o viu amarrar os dentes e teve certeza de que o arame não os manteria no lugar. Olhou para as botas do jardineiro, sujas de neve, para os remendos nos joelhos de suas calças, para os botões abertos de seu casaco e para as dobras de sua barriga sob a camisa remendada de flanela. Olhou para as mãos dele, que davam nós no arame dourado; eram mãos calejadas e bronzeadas, com manchas de terra sob as unhas quebradas e manchas de tabaco na ponta dos dedos. As rugas no rosto do jardineiro estavam ainda mais sulcadas pelo esforço de atar e reatar os dentes de ferro que teimavam em sacudir frouxamente no cabo. O menino teve medo da força e da falta de asseio do velho; mas, ao olhar para a barba longa e espessa, imaculada e branca como a lã, logo se reconfortou. Aquela barba era a barba de um apóstolo.

Rezei para a árvore, disse o menino.

Sempre reze para as árvores, disse o jardineiro, pensando no Calvário e no Éden.

Rezo toda noite para a árvore.

Reze para as árvores.

O arame deslizou por entre os dentes.

Rezo para aquela árvore.

O arame arrebentou.

O menino apontava sobre as flores da estufa para a árvore que, única entre todas as árvores do jardim, não tinha vestígio de neve.

Um sabugueiro, disse o jardineiro, mas o menino se levantou da caixa e gritou tão alto que o ancinho ainda não consertado caiu com estrépito no chão.

A primeira árvore. A primeira árvore da qual você me falou. No princípio, havia uma árvore, você disse. Eu escutei, o menino gritou.

O sabugueiro é uma árvore tão boa quanto qualquer outra, disse o jardineiro, baixando a voz para consolar o menino.

A primeira árvore de todas, disse o menino em um sussurro.

Reconfortado pelo tom de voz do jardineiro, ele sorriu para a árvore pela janela e o arame voltou a correr por entre os dentes do ancinho quebrado.

Deus brota em árvores estranhas, disse o velho. Suas árvores vêm parar em lugares estranhos.

Enquanto ele contava a história das doze estações da Via Sacra, a árvore acenava com seus ramos para o menino. Uma voz de apóstolo ressoava dos pulmões alcatroados.

E assim eles o penduraram em uma árvore e enfiaram pregos em sua barriga e seus pés.

O sangue do sol do meio-dia banhava o tronco do sabugueiro, manchando a casca.



O idiota estava nas colinas Jarvis, admirando o vale imaculado a seus pés, de cujas águas e relvados a neblina matinal emanava para depois se dissipar. Observou o orvalho se dissolvendo, o gado contemplando o riacho e as nuvens escuras se dispersando aos primeiros raios de sol. O sol voluteava na extremidade do céu rarefeito e aquoso, como um bombom em um copo d’água. Estava sedento de luz quando o primeiro e quase invisível pingo de chuva caiu em seus lábios; arrancou um tufo de grama e, provando-a, sentiu-a verdejar em sua língua. E assim a luz se fez em sua boca, e a luz era um som em seus ouvidos, e a luz dominava o vale que tinha um nome tão peculiar. Ele sabia da existência das colinas Jarvis; seus contornos elevavam-se sobre os declives da região e podiam ser vistos por quilômetros nas redondezas, mas ninguém lhe falara a respeito do vale no sopé das colinas. Belém, disse o idiota para o vale, saboreando os sons da palavra e insuflando-a com toda a glória da manhã galesa. Irmanou-se com o mundo ao seu redor, provou o ar, como um recém-nascido prova e se irmana com a luz. A vida do vale de Jarvis, evaporando do corpo da grama e das árvores e da vasta margem do riacho, infundiu-lhe sangue novo. A noite esvaziara as veias do idiota e o alvorecer no vale as encheu de novo.

Belém, disse o idiota para o vale.



O jardineiro não tinha presente nenhum para o menino, por isso tirou uma chave do bolso e disse, Esta é a chave da torre. Na véspera de Natal, eu abrirei a porta para você.

Antes de anoitecer, ele e o menino subiram a escada até a torre, a chave girou na fechadura, e a porta, como a tampa de um baú de segredos, se abriu e os deixou entrar. O cômodo estava vazio. Onde estão os segredos?, perguntou o menino, erguendo a vista para as vigas descascadas e esquadrinhando os cantos cobertos por teias de aranha e correndo os olhos pelas vidraças embaciadas da janela.

Já basta eu ter lhe dado a chave, disse o jardineiro, que pensava que a chave do universo estava escondida em seu bolso, junto a penas de pássaros e sementes de flores.

O menino começou a chorar porque não havia segredos. Vezes sem conta, vasculhou o quarto vazio, levantando poeira em busca de algum alçapão encoberto, batendo de leve nas paredes sem revestimento à espera do eco vindo de um cômodo adjacente à torre. Espanou as teias de aranha da janela e viu através da poeira a véspera de Natal coberta de neve. Um mundo de colinas estendia-se até se perder de vista sob o céu nublado, e os cumes de colinas que ele não conhecia erguiam-se em direção aos flocos de neve cadentes. Florestas e rochas, vastos oceanos de terra árida e uma nova onda de céu montanhoso, que arremetia por entre as faias negras, desdobravam-se à sua frente. A leste, destacavam-se as silhuetas de desconhecidos animais monteses e um antro de árvores.

Quem são elas? Quem são elas?

São as colinas Jarvis, disse o jardineiro, e assim têm sido desde o princípio.

Ele deu a mão para o menino e o afastou da janela. A chave girou na fechadura.

Naquela noite, o menino dormiu bem; havia poder na neve e na escuridão; havia uma música imutável no silêncio das estrelas; havia silêncio no vento inquieto. E Belém estivera mais perto do que ele imaginava.



Na manhã de Natal, o idiota entrou no jardim. Seus cabelos estavam molhados e seus sapatos, rotos e esfarrapados, estavam endurecidos pela lama dos campos. Exausto da longa jornada desde as colinas Jarvis e debilitado pela falta de comida, sentou-se sob o sabugueiro em um cepo que o jardineiro tinha rolado até ali. Cruzando os dedos à sua frente, viu o abandono dos canteiros e as ervas daninhas que se alastravam à beira do caminho. A torre se erguia como uma árvore de pedra e vidro sobre o beiral vermelho. Apertou a gola do casaco ao redor do pescoço quando um vento frio irrompeu e sacudiu a árvore; baixou os olhos para suas mãos e viu que estavam rezando. E, de repente, sentiu medo do jardim, os arbustos eram seus inimigos e as árvores, que formavam uma aléia até o portão, levantavam os braços em horror. O local era elevado demais, sobrepujando as altas colinas; o local era baixo demais, tiritando à sombra do contraforte de uma montanha recém-surgida. Ali, o vento era agreste demais, enfurecido com o silêncio, fazendo com que os galhos do sabugueiro se lamentassem em um salmo judaico; ali, o silêncio palpitava como um coração humano. Sentado sob as colinas cruéis, ouviu uma voz interna exclamar: Por que você me trouxe para cá?

Ele não sabia por que tinha vindo; ordenaram que viesse e o guiaram pelo caminho, mas não sabia quem eles eram. A voz de um povo elevou-se dos canteiros do jardim e a chuva desabou do céu.

Deixem-me em paz, disse o idiota, e gesticulou timidamente contra o céu. A chuva está molhando meu rosto, o vento está soprando nas minhas faces. Ele se irmanou com a chuva.

E foi assim que o menino o encontrou, ao abrigo da árvore, suportando o tormento do temporal com uma paciência divina, deixando que seus longos cabelos esvoaçassem ao léu, com um sorriso triste fixo na boca.

Quem era aquele forasteiro? Tinha fogo nos olhos, a pele do pescoço sob as pregas do casaco estava nua. Ainda assim, sorria envolto em seus trapos, sentado sob uma árvore no dia de Natal.

De onde você vem?, perguntou o menino.

Do leste, respondeu o idiota.

O jardineiro não mentira e o segredo da torre era verdade; aquela árvore enegrecida e surrada, que só brilhava à noite, era a primeira árvore de todas.

Mas ele perguntou de novo:

De onde você vem?

Das colinas Jarvis.

Levante-se e encoste-se na árvore.

O idiota, sem parar de sorrir, levantou-se de costas para o sabugueiro.

Estenda os braços assim.

O idiota estendeu os braços.

O menino correu o mais rápido que pôde até o galpão do jardineiro e, ao voltar pelos gramados encharcados, viu que o idiota não se movera, continuava de pé, ereto e sorridente, encostado na árvore e com os braços estendidos.

Deixe-me atar suas mãos.

O idiota sentiu o arame que não consertara o ancinho apertar seus pulsos. Cortou a carne e o sangue das feridas escorreu resplandecente pela árvore.

Irmão, ele disse. Viu que o menino trazia cravos prateados na palma da mão.




Dylan Thomas (1914-1953) foi um dos maiores poetas do século XX. Seus escritos em prosa, muito menos conhecidos que sua poesia, foram publicados na coletânea "Adventures in the Skin Trade", da qual faz parte "A Árvore".

O funeral de John Mortonson (John Mortonson's funeral)

Ambrose Bierce


John Mortonson estava morto: todas as suas falas na tragédia “Humanidade” haviam sido declamadas e ele saíra de cena.

O cadáver repousava em um luxuoso caixão de mogno com visor de vidro. Os preparativos para o funeral foram executados com tamanho desvelo que, se o falecido soubesse, sem dúvida teria aprovado. O rosto, do modo como aparecia sob o vidro, não oferecia uma visão desagradável: aparentava um sorriso esmaecido e, uma vez que a morte fora sem dor, não se distorcera a ponto de desafiar a arte do agente funerário. Às duas da tarde, os amigos se reuniriam para prestar as últimas homenagens àquele que já não precisava nem de amigos nem de homenagens. De tantos em tantos minutos, os parentes se aproximavam do caixão, um a um, e choravam sobre a fisionomia serena debaixo do vidro. Isso não servia de nada para eles e não servia de nada para John Mortonson; mas, na presença da morte, a razão e a filosofia se calam.

Pouco antes das duas horas, os amigos começaram a chegar. Depois de dar seus pêsames aos parentes enlutados, como era próprio à ocasião, sentaram-se solenemente ao longo do recinto com uma noção exacerbada de sua importância no arranjo funéreo. Em seguida chegou o pastor e, diante daquela aparição ofuscante, as luzes menores entraram em eclipse. Sua entrada foi seguida pela da viúva, cujos lamentos encheram o aposento. Ela se aproximou do caixão e, depois de encostar o rosto por um instante no vidro frio, foi conduzida com delicadeza até um assento ao lado da filha. Em voz baixa e pesarosa, o homem de Deus começou o discurso fúnebre; seu tom lúgubre, combinado ao pranto soluçante que tinha por objetivo estimular e confortar, subia e baixava, parecia ir e vir, como o som de um mar plácido. O dia sombrio escurecia enquanto ele falava; uma cortina de nuvens cobriu o céu e alguns pingos de chuva se fizeram ouvir. Era como se a própria natureza chorasse por John Mortonson.

Quando o pastor terminou o discurso com uma oração, um hino foi entoado e os incumbidos de carregar o féretro tomaram seus lugares ao lado da carreta fúnebre. Depois que soaram as últimas notas do hino, a viúva correu para o caixão, lançou-se sobre ele e soluçou histericamente. Aos poucos, contudo, deixou-se persuadir e se acalmou um pouco; quando o pastor estava prestes a tirá-la dali, contudo, seus olhos procuraram o rosto do morto sob o vidro. Ela ergueu os braços, deu um grito lancinante e caiu desmaiada para trás.

Os parentes arremeteram em direção ao caixão, os convidados foram atrás e, no instante em que o relógio sobre a lareira bateu solenemente três horas, todos estavam com o olhar fixo no rosto de John Mortonson, o falecido.

Desviaram os olhos, nauseados e quase desfalecidos. Um homem, tentando em pânico escapar da visão horrenda, tropeçou no caixão com tanta força que derrubou um de seus instáveis suportes. O caixão caiu no chão e o vidro se espatifou com o choque.

Pela abertura, saiu o gato de John Mortonson, que saltou sem pressa ao chão, sentou-se, esfregou tranquilamente o focinho rubro com uma das patas dianteiras e depois se retirou com altivez do recinto.




Ambrose Bierce (1842-1914?) foi um escritor prolífico, de vida agitada, que desapareceu no México, onde acompanhara o exército de Pancho Villa durante uma batalha da Revolução Mexicana. Grande satirista, escreveu dezenas de contos de horror, dos quais "O funeral de John Mortonson" é um dos mais curtos e eficazes.

A lagoa do deus de pedra (The pool of the stone god)

A. Merritt


Este é o relato do professor James Marston. Diversos eruditos foram muito pacientes ao ouvi-lo narrar sua aventura e depois lamentaram entre si que uma figura tão brilhante fosse presa de tamanha obsessão. O professor Marston me contou a história em São Francisco, pouco antes de sair em busca da ilha que abriga a lagoa do deus de pedra e as asas que o protegem. Ele me pareceu bastante lúcido. É bem verdade que o equipamento de sua expedição era incomum, a começar pelas cotas de malha de ferro, viseiras e manoplas de excelente qualidade que foram distribuídas entre seus membros.

“Nós cinco”, disse o professor Marston, “sentamos lado a lado na praia: Wilkinson, o co-piloto; Bates e Cassidy, os dois marujos; Waters, o pescador de pérolas; e eu. Estávamos todos a caminho de Nova Guiné; eu, para examinar os fósseis em prol do Smithsonian. O Moranus havia se chocado contra um recife submerso na noite anterior e afundado rapidamente. Naufragamos a cerca de um quilômetro e meio da costa papua. Conseguimos escapar a bordo de um bote salva-vidas, bem suprido de água e mantimentos. Não sabíamos se o resto da tripulação tinha sobrevivido. Avistamos a ilha ao raiar do dia e remamos até lá. Atracamos o bote em segurança na praia.

“‘Não custa explorarmos um pouco a ilha, em qualquer caso’, disse Waters. ‘Este pode ser o lugar ideal para esperar por socorro. Pelo menos até o fim da estação dos furacões. Temos nossas pistolas. Vamos começar seguindo esse riacho até a nascente, depois damos uma olhada no local e resolvemos o que fazer.’

“As árvores começaram a rarear. Vislumbramos um espaço aberto à nossa frente. Chegando lá, estacamos em total assombro. A clareira era perfeitamente quadrada e tinha por volta de cento e cinquenta metros de diâmetro. A linha das árvores se interrompia abruptamente às suas bordas, como se alguma força invisível as detivesse.

“Mas não foi essa impressão singular que nos deteve. Na extremidade oposta do quadrado, uma dúzia de cabanas de pedra aglomerava-se ao redor de outra ligeiramente maior. Lembraram-me imediatamente daquelas estruturas pré-históricas situadas em certas regiões da Inglaterra e da França. Vou descrever agora o aspecto mais singular daquele local particularmente singular e sinistro. No centro da clareira, havia uma lagoa cercada por gigantescos blocos de pedra lavrada. À beira da lagoa, erguia-se uma grande escultura de pedra, esculpida à semelhança de um homem com as mãos estendidas. Tinha pelo menos seis metros de altura e era extremamente bem-feita. À distância, a estátua parecia desnuda, entretanto sua superfície produzia um efeito peculiar de drapeado. Ao nos aproximarmos, vimos que estava coberta dos tornozelos ao pescoço por impressionantes asas cinzeladas. Eram idênticas a asas de morcego quando estavam dobradas.

“Havia algo extremamente inquietante a respeito da escultura. O semblante era de uma feiúra e virulência indizíveis. Os olhos rasgados de mongol inclinavam-se maldosamente. Não era do rosto, contudo, que provinha aquela sensação. Era do corpo coberto pelas asas — e, sobretudo, das próprias asas. Faziam parte da estátua, todavia davam a impressão de estar aferradas a ela.

“Cassidy, um valentão insolente, acercou-se com arrogância e encostou a mão no ídolo. Tirou-a rapidamente, com o rosto lívido e a boca trêmula. Segui seu exemplo e, vencendo uma repugnância nada científica, examinei a pedra. A estátua, assim como as cabanas, e de fato todo o lugar, era obra daquela raça esquecida cujos monumentos estão espalhados pelo sul do Pacífico. O trabalho nas asas era estupendo. Assemelhavam-se às de um morcego, como eu disse antes, dobradas, e cada uma terminava em pequenos círculos representando penas. Variavam em extensão entre dez e vinte e cinco centímetros. Passei os dedos sobre uma delas. Nunca sentira algo parecido com a náusea que me fez cair de joelhos perante o ídolo. Ao contato, a asa era de pedra lisa e fria, mas tive a sensação de ter tocado por trás da pedra em uma criatura monstruosa e repelente saída de alguma região infernal. A sensação se devia, concluí, apenas à temperatura e à textura da pedra — contudo essa explicação não me satisfez completamente.

“Logo anoiteceria. Decidimos voltar à praia e continuar o exame da clareira no dia seguinte. Eu estava ansioso por explorar as cabanas de pedra.

“Saímos pela floresta. Não tínhamos feito grande progresso quando a noite caiu. Perdemos de vista o riacho. Após meia hora andando a esmo, julgamos estar próximos à praia. Foi então que Waters apertou meu braço. Parei. Bem à nossa frente estava o espaço aberto, com o deus de pedra nos olhando perversamente à luz da lua e a água esverdeada reluzindo a seus pés!

“Tínhamos andado em círculo. Bates e Wilkinson estavam exaustos. Cassidy jurou que, com ou sem diabos por perto, ele acamparia naquela noite à beira da lagoa.

“A lua estava muito brilhante. O silêncio era completo. Fui vencido por minha curiosidade científica e resolvi investigar as cabanas. Deixei Bates de guarda e fui até a maior delas. Tinha um cômodo apenas, e o luar que penetrava por frestas na parede o iluminava completamente. Ao fundo, havia duas bacias incrustadas na pedra. Olhei para dentro de uma delas e distingui um tênue brilho avermelhado que emanava de vários objetos esféricos. Peguei um punhado deles. Eram pérolas, pérolas esplêndidas, com uma estranha coloração rosada. Fui correndo em direção à porta para chamar Bates — e estaquei.

“Meu olhar fora atraído pelo ídolo de pedra. Teria sido uma impressão causada pelo luar ou ele havia se mexido? Não, foram as asas! Elas se salientavam da pedra e adejavam — adejavam, estou dizendo, dos tornozelos ao pescoço da estátua monstruosa.

“Bates também as vira. Ele estava de pé, empunhando a pistola. Em seguida, um tiro ressoou. Depois disso, o ar se encheu com um som impetuoso, como o de mil ventiladores. Vi as asas se destacarem do deus de pedra e arremeterem, indistintas, sobre os quatro homens. Outro vulto emergiu veloz da lagoa e se juntou a elas. Não conseguia me mexer. As asas rodopiavam rapidamente em volta dos quatro. Todos estavam de pé naquele momento e eu nunca vi horror parecido ao que se estampava em seus rostos.

“E então as asas avançaram. Aferraram-se a meus companheiros como tinham se aferrado à pedra.

“Recuei para a cabana. Passei a noite prostrado lá, demente de horror. Muitas vezes ouvi o som, que lembrava o de ventiladores, circulando o recinto, mas nada entrou na cabana. Chegou o dia, e com ele o silêncio, e eu me arrastei pela porta. Lá estava o deus de pedra com suas asas esculpidas, assim como o tínhamos visto dez horas antes.

“Corri em direção aos quatro homens que jaziam deitados sobre a grama. Pensei que tudo talvez não tivesse passado de um pesadelo. Mas eles estavam mortos. E isso não era o pior. Cada um deles havia enrugado até os ossos! Pareciam balões secos e brancos. Não tinham uma gota sequer de sangue em seus corpos. Não eram nada além de ossos envoltos em pele descorada.

“Recuperando o controle, acerquei-me do ídolo. Algo estava diferente nele. Parecia maior, como se — o pensamento passou por minha cabeça — como se tivesse se alimentado. Em seguida, vi que estava salpicado das gotículas de sangue que haviam caído da ponta das asas que o adornavam.

“Não lembro o que aconteceu depois. Acordei na escuna chamada Luana dos pescadores de pérolas que haviam me resgatado delirante de sede, assim pensaram, à deriva no bote do Moranus.”



A. Merritt (1884-1943) foi um eminente autor da literatura fantástica. Sua obra foi levada ao cinema por Benjamin Christensen e Tod Browning. Seu romance mais celebrado, “The Moon Pool”, de 1919, foi entusiasticamente elogiado por H. P. Lovecraft. “A lagoa do deus de pedra” evoca com maestria e grande economia uma atmosfera de horror cósmico que hoje chamaríamos de lovecraftiana.